Há
dias em que nos sentimos mais ignorantes
do que noutros; isso acontece principalmente
quando nos apercebemos do nosso desconhecimento
acerca de factos ou situações,
sobre os quais, um considerável
universo de pessoas parece saber pronunciar-se
com rigor, provas dadas e fundamentação
segura.
Senti-me assim – mal – quando
li o último editorial do director
do Diário Digital, que começa,
também, por uma confissão
– “Cheguei tarde, aos 16 anos,
ao contacto com a pessoa e a obra de Agostinho
da Silva”.
Chegou tarde, mas chegou.
E diz o povo que é sábio,
que mais vale tarde do que nunca. Outros
chegarão – se chegarem –
ainda mais tarde; outros terão
chegado mais cedo e alguns não
chegarão nunca. Não quero
incluir-me no grupo do nunca, mas já
não consigo afastar-me do grupo
tardio. Se o Filipe chegou tarde aos dezasseis
anos, que poderá dizer-se do meu
atraso de quarenta e oito…
E contudo, cheguei quase
a horas – terei chegado? –
junto de outros pensadores; Aqueles gregos
que subiam aos terraços, bebiam
aguardente, comiam passas e discutiam
a origem do universo! Mas fui levado pela
mão; isto é, foram-me impostos
pelo programa curricular da disciplina
de Filosofia, a que também cheguei
depois do meio-dia, aos vinte e nove anos,
quando, para fazer o décimo segundo
ano, fui forçado a reconhecer a
minha incapacidade matemática,
onde nunca consegui chegar.
Mas lembro-me de um colega
de sala ter falado em Agostinho da Silva,
questionando a professora sobre as razões
da não inclusão desse pensador
nos currículos da disciplina. Não
me lembro da resposta, só sei que
continuámos a discutir Sócrates;
Parménides; Aristóteles;
Platão; e, mais tarde, Descartes
e Kant.
Nunca li uma linha da
obra de Agostinho da Silva; nunca entrei
numa discussão sobre o seu pensamento;
nunca tive a preocupação
de o conhecer e de saber quem foi ou quem
é.
Claro que, não
posso apenas desculpar-me com os currículos
académicos; ou com o Estado-Nação
que o forçou a partir; ou com os
editores que tão tarde, parece,
resolveram divulgar, amplamente, a sua
obra – principalmente dedicada à
cultura da língua portuguesa. Há
dias em que a ignorância nos torna
– me torna – estúpidos,
estúpido. Em casos tais, na sua
constatação de facto, só
nos – me – resta recomeçar;
nunca esquecendo os que já se conhecem,
mas sobretudo querendo lembrar aqueles
que queremos – quero – conhecer.
Ou conhecer os que quisermos lembrar.
Sei que é tarde;
e não é apenas pela idade,
mas sim pelo tempo que perdi, tecnicamente
de impossível recuperação.
Há quem chegue
tarde e há que se atrase…
E nem sequer serve de
desculpa, a falta de despertador!