Eu vi um dia um homem que chorava,
sentado na encosta da vida descendente onde parecia
observar algo que lhe fugia por entre dedos frágeis
de olhares inquietos e de cabelos desgrenhados
como agulhas de pinheiros em pinheiral vadio.
Vi também aproximar-se, dele, lá
na encosta avistada, outro homem, outro ser.
- Choras, homem sentado?
- Sim, choro.
- E porque choras tais lágrimas se da encosta
onde estás, ainda vês o Pôr-do-Sol?
Vi nesse dia o homem que chorava, erguer ao visitante
os olhos húmidos de dor e de cabelos desgrenhados
como fios vadios em crinas selvagens de cavalos
ao vento, dizer murmurando como se só para
si o fizesse ou se envergonhado estivesse de confessar
ao Mundo as palavras faladas das acções
praticadas.
- Eu percorri caminhos errados oh Viajante do
tempo, distinto visitante de pensadores de encostas
desencontradas como eu aqui, que ainda vejo o
Pôr-do-Sol mas já não me lembro
do nascer.
- E por onde andaste, oh Homem errante de veredas
vadias em personalidades inquietas?
- Errei pela vida e pelos montes e pelas mentes
misteriosas de seres não vadios de montes
sem encostas e por vales sem montanhas ou rios
sem margens, já não sei, oh distinto
Viajante, tu que viajas sem parar, por onde viajei
eu, ou em que braços me estendi e em que
ombros mergulhei este rosto que aqui vês
num corpo fraco de suportar, a alma dorida dum
espírito arrependido.
E falava tranquilo o homem sentado, como se a
dor que sentia não o deixasse levantar;
como se a dor que trazia fosse tonelada de mil
quilos em consciência pesada de sofrer ,calada
e incompreendida. Pelos olhos do viajante, olhei-o
nos olhos de dor e no semblante triste de um rosto
amargo, vi o que só eu consegui ver, ali
naquela hora e naquele lugar onde mais ninguém
havia para ver o semblante amargo do rosto triste.
Pedi licença para ver; ao que ele me disse:
- Podes.
Pedi licença para olhar; ao que ele me
disse: - Olha.
Pedi licença para apertar a sua mão
sem força, descaída sobre os joelhos
vacilantes em pernas esguias de tremuras hesitantes
de firmeza; ao que ele me disse: - Aperta.
Pedi ainda licença para perguntar se o
silêncio que sentia era viagem sem regresso
ou partida sem chegada em aventura suicida de
exames falhados ou de alvos erradamente examinados;
ao que ele me disse: - Pergunta.
Nessa tarde, porque tarde era no dia desse encontro
a sós com ele; o Viajante e comigo à
distância, Eu e Ele ou Ele e Ele, ao seu
lado me sentei e o olhei olhos nos olhos sem desvios
até sentir que já me olhava e me
dizia sem falar e me percebia sem dizer e que
falávamos sem palavras.
E desse erro, já não sei o lado
errado nem o porquê do erro dado, tantas
as dúvidas surgidas em afirmações
que me confundiram e perseguiram em galopadas
de silêncios que só eu ouvi e que
mais ninguém escutou.
Quis ser nesse dia um qualquer Deus imaginado
em ritual santificado de crenças e de lugares
onde o Céu se aproximasse e das estrelas
trouxesse, um véu de luz transparente sobre
ele na amargura e sobre mim na sabedoria para
ordenar ao Sentado: - Levanta-te.
E da licença que me deu aquele homem encontrado
que chorava em olhos magoados sem lágrimas
de ver eu apenas disse: - Olha.
E Ele olhou como já olhara o rosto perto
do seu, a mão perto da sua, e a alma em
sintonia.
E quando assim me viu, a mim que também
chorava; de longe, mas perto em viajante chegado,
foi ele que gargalhou, Homem viajante, afinal
quem está errado é só quem
está sentado ou quem de pé caminhava?
Ri-me então da situação e
nada mais lhe perguntei, porque nada mais era
devido perguntar, os silêncios são
de ouro e no silêncio de mentes sofridas
qualquer ruído é tempestade.
Ouviram depois os dois o que eu ouvi também
sozinho:
Da outra encosta do monte, surgiram em cavalgada
de heróis, pelas pedras rolantes lavadas,
cascatas de gargalhadas em sorriso de ver, de
bocas abertas felizes; porque naquela tarde no
monte um homem que chorava encontrou um que falava
e os dois, falando e chorando ou gargalhando e
rindo levantaram-se e fundiram-se como mente inquieta
ausente em corpo estático presente.
E Eu, que de longe tudo vira e incapaz de gritar
pela simplicidade tranquila do encontro acontecido,
em voz embargada murmurei, Hei, vocês aí,
esperem por mim, também quero caminhar
pela encosta.
Ouviram-me de pronto os dois, na minha voz baixa
de súplica e logo ali, os dois já
num só em que se tinham transformado, abriram
os braços e sorriram e eu corri, corri
que nem cavalo selvagem até aos braços
abertos de quem abria, crinas ao vento em beleza
que só eu senti e com eles rolei pelo monte;
encosta acima, encosta abaixo, descendo até
ao vale, verdejante de verde luz.
Como a Esperança.
Como Eu.