Dentro
de dias – poucos – terá
início a segunda edição
do Campeonato Nacional de Língua
Portuguesa – a ideia podia ter outra
designação, menos desportiva
e mais cultural; mas, já que assim
baptizado, pouco a dizer quanto ao facto.
Promover a Língua Portuguesa e
o seu uso correcto ao nível oral
e escrito, é uma ideia que me parece
brilhante; sobretudo se tivermos em conta
que no País de Camões, Eça
e Bocage – entre outros -, pouco,
muito pouco se tem feito para promover
o gosto pela nossa língua e literatura
em geral, e os nossos escritos em particular.
Promove-se apenas –
ou quase – aquilo que é moda;
normalmente importada de lá para
cá e nunca – ou quase - o
contrário; isto é, exportar
moda. De nós para eles, claro,
para os outros que não falam nem
escrevem em português, fazendo-o
em língua própria; no que
fazem muito bem, produzindo; e muito bem
feito, exportando.
Deve promover-se a leitura,
a escrita, a interpretação,
o rigor gramatical e, sobretudo, o entusiasmo
pelas coisas portuguesas; sem vergonha,
nem medo nem acanhamento por aquilo que
constitui, hoje, o legado que nos resta
do império que nunca fomos; ou
não chegámos a ser –
a língua. Ideia interessante, sem
dúvida; mas…
…Mas cujo encanto
se esvai numa atribuição
de prémios quase paradoxal –
escrevo quase para deixar alguma margem
de tolerância. Na verdade, consultando
a lista de prémios a atribuir aos
três primeiros lugares do campeonato
– não gosto do termo –
verifiquei que, embora a primeira parte
do prémio; de cada um deles, seja
adequada, a outra, a segunda, não
o é; pelo menos, não no
meu entendimento.
“Uma viagem ao
Egipto, com estadia no Cairo, para duas
pessoas, com transporte e entrada na mítica
Biblioteca de Alexandria”.
“Uma viagem a Inglaterra,
com estadia em Londres, para duas pessoas,
que inclui uma visita à terra de
Shakespeare, Stratford-Upon-Avon”.
“Uma viagem a Espanha,
com estadia em Madrid, para duas pessoas,
que inclui uma visita aos locais percorridos
por Dom Quixote de La Mancha”.
Ou seja, desta leitura
se conclui – concluo – pretender-se
premiar quem vier a mostrar querer e saber,
com uma viagem a locais de culto literário;
mas… …Mas a locais de culto
literário que, embora relacionados
com a literatura mundial, pouco ou nada
têm a ver com literatura portuguesa;
e o campeonato – aceitemos o termo
– é de língua portuguesa,
não de literatura universal. É
um facto em concreto e não em genérico.
Os grandes escritores
portugueses – por exemplo, os que
mencionei no início do texto –
estiveram na Índia e em França
e são directamente relacionados
com vivência nesses países.
Porque não uma
viagem à Índia, pelos caminhos
percorridos por Camões e Bocage?
Porque não uma viagem a Paris,
pelos caminhos percorridos por Eça?
Porque não um passeio pelo estuário
do Sado e cidade de Setúbal? Paradoxo:
Mostre que sabe português e receba
como prémio cultura Egípcia
– Por muito “Alexandria”
que seja -; Inglesa e Castelhana.