1. Há
dias andava eu a fazer de corredor nas horas
livres – tenho o privilégio de pertencer
ao grupo daqueles que têm por obrigação
permitir-se a esses luxos – em volta de um
magro carreiro desenhado por entre ervas daninhas,
entre o cercado de um terreno militar quando,
para espanto meu, fora do emaranhado das ervas
surgiu, estático e indiferente, um
rabo de homem em posição de
agachado, a fazer aquilo que supostamente
se faz em tal posição: cagar.
O dito cujo
habita numa construção provisória
construída dentro do mesmo cercado,
com uma outra cercadura em volta da habitação
no interior desta mas, para fazer aquilo que
toda a gente faz, saltou a cerca própria
e postou-se impávido junto ao carreiro.
Podia ter virado o sim senhor para sua cerca
ou mesmo contra as ervas, tentado dissimular
ou camuflar a sua presença mas não,
cagou mesmo ali, junto ao carreiro onde eu
fazia de corredor; não sei se o fez
para a tropa se simplesmente para mim.
Na mesma
semana mas fora do cercado, junto a um bairro
de habitação social – que modéstia,
em plena Lisboa umas casitas construídas
para gente pobrezinha e desprotegida da sorte
– dois militares, trajando civilmente, foram
apedrejados quando se deslocavam entre quartéis
da tropa; parece que não tinham tabaco
para dar aos que os abordaram junto à
avenida que faz paredes meias com o bairro
dos desprotegidos e lá vai disto; isto
é, lá foi daquilo: foram corridos
à calhoada até chegarem ao quartel
de destino; um deles foi suturado com uns
quantos pontos na cabeça, o outro conseguiu
esquivar-se à pontaria adversária
daqueles que, deserdados da sorte, habitam
por castigo em prédios feitos de propósito
junto a uma das avenidas da nova Lisboa.
Ainda na
mesma semana almocei com o meu amigo Leal
e cada vez que a gente almoça lá
vem conversa sobre tropa; e porque já
nada é como dantes e porque já
ninguém respeita e se fosse dantes
isto e aquilo e aqueloutro e isto de democracia
não tem nada e enfim e coisa e tal.
O meu amigo Leal é reformado, foi tropa
há cerca de quarenta anos, conhece
muita gente no meio e sempre que pode gosta
de recordar e comparar as coisas de agora
com as do seu tempo. A seguir à tropa
falamos sobre reformas; E o meu amigo é
que está bem, daqui a dois ou três
anos está reformado e pronto e o resto
do pessoal tem de andar uma vida inteira a
trabalhar para receber reformas de merda –
isto disse ele – e você acha que isto
é que é igualdade?
Normalmente
acabamos a dizer mal dos políticos,
desanimados com o Benfica e em desacordo quanto
às touradas. Quer ir comigo a Madrid
ver uma corrida, perguntou-me, Nem pensar,
disse eu, Oh meu amigo, olhe que sempre é
melhor ir ver uma tourada do que ver o cigano
a cagar e levar pedradas na avenida...
2. Li sobre
o encontro mundial de escritores em Nova Iorque
e fiquei cheio de inveja; que raio, não
há meio de conseguir entrar no mundo
dessa gente que escreve coisas sábias
para as multidões lerem. Mas eu tento,
oh se tento, escrevinho que me desunho, arrumo
tudo em ficheiros e guardo; vou enchendo espaço
em disco. Talvez um dia destes haja um golpe
de vento que me abra as portas e janelas que
se têm mantido fechadas.
Entretanto,
continuo a correr nos tempos livres, a escrever
nas horas vagas, a defender a democracia perante
o meu amigo Leal e a dizer mal de uns e de
outros que é para isso que eu tenho
jeito.