Foi um
bater ao de leve na janela do carro, Toc Toc –
“Batem leve, levemente, como quem chama por mim”
–, que me fez olhar para o lado esquerdo quando
já estava de olhos fitos na estrada para
seguir viagem a caminho de casa.
Não era neve nem vento.
Era gente; era o Valdemar. Já não
via o Valdemar há uns dois anos; embora
trabalhando perto um do outro, as profissões
são distintas, as funções
também e de modo que nestes casos, os amigos
mesmo sendo apenas conhecidos, só se encontram
quando calha; calhou ontem. E ao ver o sorriso
de orelha a orelha esticado naquele rosto de idade
madura, não resisti ao convite de abrir
a porta para cumprimentar o homem que a mim se
dirigia, de pasta ao estilo de caixeiro viajante
na mão direita e relógio de luxo
agrafado no pulso esquerdo. (O Valdemar é
um bocado a atirar para o vaidoso, gosta de exibir
os pertences que dão nas vistas; e uma
pasta de couro sempre combinou bem com um relógio
de marca).
Então caro amigo, como
é que vai isso, tudo bem – curiosa, esta
maneira de englobar o tudo todo quando se quer
saber o estado emocional e físico de uma
pessoa. Respondi-lhe como habitualmente respondo
a outras perguntas do género, Sim, está
quase tudo bem. Então, então, passa-se
alguma coisa de mal, algum problema, insistiu
com cara de caso sério, porque não
percebeu o meu comentário de resposta.
(Riscos que se correm quando respondemos de maneira
diferente a perguntas sempre iguais).
Há sempre alguma coisa
que nunca está como a gente quer, esclareci
eu com ar de filósofo a contemplar o pôr-do-sol
na Ilha das Flores. E entretanto saí do
carro – afinal ainda nem tinha saído do
local de estacionamento – cumprimentei o interlocutor
com um passou bem, vigoroso e de mão apertada,
que é como convém nos cumprimentos
personalizados e olhando mais a sério para
o Valdemar, disse, Continuas com óptimo
aspecto!
E então e como é
que vai isso de mulheres, perguntou o Valdemar
à queima roupa, quase ignorando o meu comentário
sobre o excelente aspecto que eu lhe achava. Digo
quase ignorando, porque o brilho que lhe notei
no acastanhado dos olhos, deu perfeitamente para
perceber que o mesmo não lhe foi de todo
indiferente e quer queiramos quer não,
ninguém resiste a um piropo, mesmo sendo
o respectivo, dito de homem para homem; os dois
à moda antiga, é claro, que outras
modas não cabe discutir no presente contexto.
Como é que vai isto de
mulheres, olha, vai na mesma, tenho uma, disse-lhe
eu assim a modos que envergonhado, por não
ostentar no meu currículo, uma lista dourada
das conquistas que nunca tive. Não é
isso, porra - porra disse ele, eu só transcrevo
- assim por fora, não há nada para
aguçar os apetites, olha, vou agora encontrar-me
com a minha amiga viúva. E rica, perguntei
eu. Nem por isso, respondeu-me com ar muito sério
e quase ofendido, como que a querer dizer que
os valores materiais não são tudo
nesta vida e o que conta é a paixão.
Mas olha, esclareceu, Também não
me chupa nada - ele disse assim e eu, fielmente,
o transcrevo - cada um paga o que tem de pagar
e ficamos sempre amigos. Ora bem, acrescentei
eu com ar sapiente, porque há determinadas
alturas em que não sabendo o que responder,
dizemos ora bem e serve sempre para tudo.
Sempre fui um homem de muitas
mulheres quando era novo; e ainda hoje sou, rematou
com convicção. E continuou mostrando
todo o seu fôlego, Houve tempos em que cheguei
a encontrar-me com duas mulheres durante o dia
e à noite ainda tinha que chegasse para
a minha. E logo após uma rápida
pausa, Eu acho que arranjar amantes não
tem mal nenhum, rejuvenesce o corpo; atrasa o
envelhecimento e faz bem à pele; sinto-me
óptimo. Ainda bem, disse eu, porque ficava
mal repetir o ora bem. Olha, as minhas mulheres
estão aqui, e mostrei-lhe dois envelopes
grandes. Aí?! perguntou, Empacotadas, essa
é nova! Pois, um texto que vou mandar para
duas editoras, isto ocupa-me o tempo das tuas
mulheres, concluí outra vez com ar de filósofo,
mas desta vez a contemplar o luar quente de Agosto.
Pareceu nem sequer ter-me ouvido e acrescentou,
Vou ter com ela. E foi. E Fui.
Cada um ao seu destino.
Pelo caminho, fui lembrando as
palavras e a satisfação mostradas
pelo Valdemar. “Sempre fui um homem de muitas
mulheres”. Sempre fui um homem de muitos escrevinhares.
“Sempre gostei de ter amantes”, Sempre gostei
de botar caracteres. “Gosto de andar nesta vida,
ajuda a rejuvenescer”. Gosto de escrever, ajuda
a desabafar. “Vou ter com a viúva”. Vou
aos correios.. E assim, na minha mente, fui construindo
um conjunto de afirmações mútuas
em que cada um procurava evidenciar aquilo que
mais sentia.
Não que seja imune a vontades
como as do Valdemar…