Embora
de igual terminação, os
conceitos são bem diferentes; o
primeiro trata da alimentação
e fortalecimento do corpo e o segundo
do enriquecimento e embelezamento da alma
– seja lá o que isso for
e esteja localizada onde estiver.
No entanto, apesar de categoricamente
diferentes na significação,
assemelham-lhe nos intuitos e aproximam-se
no contexto; e isto nem sequer constitui
um paradoxo. Consta no dicionário
(informação daí retirada
para que os pés não se me
misturem com as mãos) que gastronomia
quer dizer, “Arte de bem cozinhar,
a fim de proporcionar o maior prazer a
quem come”; ou, em complemento,
“Arte de comer bem e de apreciar
os bons acepipes”. Comer, mas com
arte, portanto, nem que acepipes se mastiguem!
Do
mesmo dicionário, retirei informação
sobre o conceito de poesia; diz assim:
“Arte de fazer versos; os diferentes
géneros de composição
poética; conjunto de obras em verso,
escritas numa determinada língua
ou próprias de uma determinada
época, de uma corrente literária,
etc,;”. Não é referida
nesta definição, qualquer
alusão a alimento de alma; fique,
então, o leitor a saber que, se
alguém alimenta a alma com poesia,
essa actividade não consta nos
manuais de informação e
terá sido, apenas, um delírio
de meu propósito. Nada consta,
também, sobre o entendimento de
etecetra, mas supõe-se –
suponho – não haver qualquer
relação com poesia.
Contudo,
é legítimo alimentá-la;
à alma, claro, que ao corpo, bem
entendido, para além de legítimo
é também necessário
prover-lhe alimentação,
seja ou não gastronomicamente cozinhada,
preparada com arte e engenho, sem engenho
mas com arte ou sem engenho nem arte;
nem jeito nem batatas – muitas das
vezes, o que é preciso é
comer, nem que seja o pão que o
diabo amassou. E com o diabo não
se brinca; não vá o diabo
tecê-las, o melhor é comê-lo.
O pão!
No
Porto Alto, pequena localidade às
portas de Lisboa, mãos dadas com
a Vila Franca abraçada Tejo, onde
este quase acaba e a Lezíria começa,
está exposto, num dos cafés
ou cervejaria ou seja lá o que
for, um curioso cartaz de letras agigantadas,
que diz assim: “Bifanas há
Poeta”. E nem sequer está
lá há pouco tempo; já
lhe fisguei a mensagem por diversas vezes
sem que, até agora, de entre as
inúmeras altas autoridades que
existem no Meu País, uma só
que seja, se digne colher informação
sobre a verdadeira mensagem daquele escrito
de rua – se bifanas e poeta existem,
em simultâneo, na mesma sala ou
se, mais provavelmente, entendo eu, se
trata de um erro ortográfico do
tamanho da própria lezíria,
esse majestoso espaço que Alves
Redol tão bem descreveu nos seus
romances, cheios de poesia e de beleza
bucólica; e de gente simples e
lutadora e verdades cruas e nuas. Não
é absolutamente necessário
que se defina, em papel de dicionário,
o conceito de poesia; esta, quando existe,
sente-se. Não são os sábios
letrados e estudiosos que nos botam olhos
a dentro aquilo que é poeticamente
poesia; se boa ou má, assim-assim
ou mais ou menos.
Pelos
vistos, também não é
absolutamente verdade, que me desculpe
a Priberam, que gastronomia seja como
vem definido em dizeres de sua autoria;
pelo menos no Porto Alto ou pelo menos
para os criadores daquela “obra
de arte”.
A
não ser que tais bifanas, sejam
alimento de sustento aos “benvindos”
de cada terra. Continuo, no entanto, a
não lhe encontrar poesia alguma.
Mas eu, não sendo sábio
nem letrado, não sei definir poesia.
Mas
uma bifana e um copo de tinto, isso sim,
sei o que é.