“Estando
próxima a Páscoa dos Judeus,
Jesus subiu a Jerusalém. E achou
no Templo os que vendiam bois, ovelhas
e pombas, e também os cambistas
ali sentados; e tendo feito um azorrague
de cordas, lançou-os todos fora
do Templo, bem como as ovelhas e os
bois; e espalhou o dinheiro dos cambistas,
e virou-lhes as mesas; e disse aos que
vendiam as pombas: «Tirai daqui
estas coisas; não façais
da casa do meu Pai casa de negócio»”.
Jo 2, 13-25.
Segundo consta nos
livros da sabedoria, Cristo manifestou
o seu descontentamento perante o comércio
desenfreado que se praticava no Templo,
em Jerusalém, expulsando da casa
do Pai os que faziam daquele espaço,
lugar de comércio e de lucro.
Actuou como um bom filho, protegendo
o património da família.
Que mais tarde viria a engrandecer e
a expandir-se mundo fora e mais além;
o património e a família.
Em Fátima, reza
a lenda que não chega a ser história,
aconteceu aquilo que é suposto
ter sido visto e presenciado e constado
por quem viu. Há teorias, explicações,
argumentos, contradições,
mas sobretudo há Fé, aquela
coisa que nos faz acreditar, crendo,
e nos faz crer, acreditando. Acredita
quem quer e crê quem lhe aprouver.
Com a fé das
pessoas não se brinca…(nem deviam
produzir-se escritos de opinião!)
Mas podem e devem produzir-se escritos
sobre sucessos comerciais; empresas
empreendedoras, em vias de expansão
e com garantia de sucesso. Fátima
é uma dessas empresas. Não
apenas a Fátima santuário
mas a Fátima circundante, que
se estende para além dos muros
da Cova da Iria e que se ergue por entre
o diversificado negócio da venda
de produtos “santos” e de santos produtos;
cafetaria, restauração,
hotelaria e afins.
Quarenta por cento,
foi quanto, em meia dúzia de
anos, subiram as receitas do Templo,
do Santuário, do Negócio.
Não vi as contas mas acredito
nos números; tal como não
vi o milagre e durante muitos e muitos
anos tentei acreditar nele, mesmo comprando,
quando me deslocava ao local, as santas
peças e as maquinetas de espreitar
e as velas de queimar e os lenços
de acenar, sabendo que de santas, tais
peças nada tinham.
Tal como não
vi a expulsão dos vendilhões
do Templo, feita pelo próprio
mentor da igreja católica, apostólica,
romana. Mas acredito que sim, embora
haja alguns escritos que põem
em causa esta acção, devido
principalmente aos soldados que rodeavam
os pórticos exteriores que não
teriam permitido a Jesus Cristo, causar
tal distúrbio. E se o fez, fez
muito bem; bois, ovelhas e pombos, mesmo
sendo estes no feminino, não
são para vender em tais lugares,
quanto mais não seja, porque
se uns são bois, têm cornos
e transportam moscas, outras acarretam
carrapatos, sendo muitas delas ranhosas
e os restantes fazem “corrupt, corrupt”,
que é coisa impensável
de se dizer, ouvir e praticar. Mas o
negócio continua, em franca expansão
segundo consta e onde já ninguém
parece lembrar-se dos ensinamentos e
das acções do Fundador.
De Cristo que tendo
protegido a casa do Pai, se esqueceu
de cuidar do espaço da Mãe;
mesmo sendo apenas mãe biológica.
É um quase paradoxo:
expandir a fé à custa
dos ensinamentos de um Sábio
como foi Cristo, obtendo daí
os milhões, contradizendo aquilo
que ele ensinou e praticou até
ao momento em que os judeus, traidores,
o entregaram aos romanos maus.
Talvez seja muito mais
do que um paradoxo e se situe lado-a-lado
com a alienação das multidões
e das mentes e dos espíritos.
Mas sobre os espíritos
e as mentes, prefiro o lema da Cavalaria:
“mens agitat molem”. Ainda na Cavalaria,
“Ao galope ao galope ao galope….À
Caaarga!”. Isto é, porrada neles.
Nos vendilhões.