Escrito
a quatro mãos, ou se se preferir a duas vozes,
o livro “ Mundos ” é, pela sua
estrutura e pela lógica estruturante de narrativa,
uma obra de difícil classificação,
sobretudo porque mescla os elementos ficcionais com
informação factual que tanto pode situar-se
no domínio da História como no da Sociologia.
Os
autores pertencem a gerações diferentes
e conseguem, ultrapassando o quadro de referência
que caracteriza esse espaço geracional, constituir
um discurso coeso e homogéneo no qual nenhuma
das vozes sobressai, nem nenhum estilo se torna hegemónico.
Na realidade, é como se existisse somente um
escritor.
Neste
“Mundos” cabem vários mundos, os
do tempo real e os da reflexão sobre os lugares
e as pessoas em que assenta a identidade de uma história
que se desdobra em várias histórias.
Mas
este, é também, um livro que reflecte
sobre esta realidade – memória colectiva
que se chama Portugal: “Estranho País
e Mundo este, que tão mal julga os homens e
permite que se condenem os seus heróis, mantendo-os
no esquecimento das recordações tardias,
ténues e longinquamente inacessíveis.
A todos eles, resta-lhes porém a justiça
da História. A História é lenta
a julgar, mas é justa nas sentenças”.
A
amargura da constatação dá lugar
à esperança na justiça da história.
“Mundos” fala de momentos de uma História
Contemporânea como o 25 de Abril, intercalando
nesse registo histórico percursos e vidas individuais,
sempre de uma forma original e engenhosa.
São
estas, razões de sobra para que se assinale
o aparecimento deste texto, com a regularidade de
ter dois autores, sendo um deles – Norberto
Elias – homónimo de um dos maiores sociólogos
do século XX. Fique, pois, o leitor atento
aos mundos narrados que fazem de “Mundos”
um livro a ler.
José
Jorge Letria