Ontem foi
a minha vez de pagar o almoço a uns
amigos. Dois. Não são dos piores,
definir tal conceito é tarefa complicada
e ingrata mas sempre vão aparecendo
alguns em quem podemos confiar mais do que
noutros.
Fomos ao
Zé dos Cornos, assim lhe chamou um
deles, aquele que disse que, mesmo sendo eu
a pagar, nos levava a um sítio giro.
É uma tasca situada na baixa de Lisboa,
entalada entre paredes velhas e vielas estreitinhas,
numa subida empedrada em blocos de granito.
Não deve ter mais de trinta metros
quadrados mal contados, incluindo balcão,
vão da escada e pilares; tudo junto
e em harmonia. Quatro mesas dão para
cerca de trinta pessoas se amanharem em volta,
sentadas em bancos baixos, de tampo redondo
e esfolados pelo uso. Todos comem à
farta. Entrecosto grelhado com Arroz de Feijão
é a especialidade das terças-feiras.
Toca a comer;
agarrando de unha as tiras de entrecosto e
fazendo uso do garfo nos bagos de arroz com
feijões. Ninguém se entende,
tal a barulheira da “falação”
dos comensais; diz-se mal de tudo e todos
(governo inclusive e principalmente), mas
tudo bem disposto. A páginas tantas
perguntei a um deles, ao que nos levou aos
três (o dito cujo também conta)
a tal comércio, Olha lá, e aquela
salinha ali ao lado com entrada em arco bem
feito é para quê, Não
te metas nisso, disse ele, Aquela sala é
reservada aos bancários, Porra, disse
eu, E é só para esses gajos,
a gente não tem direito a uma salinha
catita, Claro que não, Mas porquê,
Tu já viste como é que estás
vestido, Eu, e tu, disse eu sem desarmar e
sem querer dar o barco a torcer, Agora vai
lá espreitar a fatiota dos gajos. Não
fui, porque eu sei como é que os “gajos”
se vestem. Mas olhei por mim abaixo e vi um
pólo ranhoso “made in china” de colarinho
aberto e com um botão em falta. Olha
que tu não estás melhor, disse
eu. Não lhe faltava qualquer botão
mas o pólo era da mesma família.
O outro não se meteu na conversa, mas
tinha as mãos lambuzadas, sinal de
bom aproveitamento do tempo em que nós
discutíamos os problemas e assimetrias
das sociedades desiguais que vivem – e sobrevivem
– com diferenças.
À
saída, ainda com meia pedra no sapato
disse eu para o outro – aquele que falou menos
e comeu mais – Já viste onde é
que este gajo nos trouxe, quando for ele a
pagar como é que será, Estou
mas é a ver que tu és daqueles
que gostam de comer mal e pagar bem, um dia
levo-te a sítio desses, disse o visado.
Mas olha lá – eu ontem estava um bocado
melga – Zé dos Cornos porquê,
Porra que tu hoje estás mesmo melga
(acabei de o confirmar), volta lá atrás
e olha para o quadro em frente à porta
de entrada.
Voltei atrás.
Em frente
à porta de entrada, um belo par de
cornos, afiados e de boi – supõe-se,
que nisto de cornos nunca se sabe – decorava
aquela parte da parede. Por baixo, estava
exposto um diploma. Pareceu-me uma espécie
de certificado de pertença mas não
fui confirmar; acanhei-me um bocado, porque
ali toda a gente parecia saber onde estava,
menos eu!
Os ditos-cujos
estavam na parede em frente mas mesmo à
entrada da sala reservada aos bancários.
Fiquei muito
mais aliviado. Bem feita!