Há
muitos anos atrás, tantos quantos separam os
meus tempos de jovem estudante, dos dias de hoje,
comentei em voz alta para um grupo de colegas que
comigo caminhavam pelo corredor, “Mas pessoal
docente, porquê?”; referia-me a uma placa
colada à entrada do gabinete de professores
do colégio e que dizia, “Pessoal Docente”.
“Porque é pessoal muito doce”,
disse um dos professores que, na altura do desabafo,
se preparava para entrar no referido espaço.
E sorriu, sem mais comentários; ao mesmo tempo
que eu corei, também sem mais comentários.
Fraco era o meu conhecimento, não só
em matéria de adjectivos, como também
do universo didáctico!
Que
ainda o é – fraco – em muitas e
variadas matérias; mas neste espaço
de trinta anos, mais ou menos, aprendi a compreender
o que é um docente e um corpo docente. E não
é por ser “pessoal doce”; que também
é!
Professores;
bons e maus, assim-assim, muito maus e muito bons,
sempre houve e haverá. Mas todos correm o mesmo
risco; independentemente do seu grau de profissionalismo,
de sapiência e de formação didáctica:
serem recordados durante a vida inteira por várias
gerações; que deles – e delas,
que também são eles, neste contexto
–falarão sobre muitas e variadas coisas.
Do
professor de História; que entrava sala dentro
com a fralda da camisa fora das calças, cheirava
a vinho, mas nunca abria o livro para dar a matéria
– sabia tudo sem nada consultar;
Da
professora de Inglês; que usava vestido curto
e que gostava de se sentar à secretária
mostrando um tudo-nada do tudo que os alunos julgavam
ver – no fundo pouco viam e apenas imaginavam;
Da
professora de Português que também ensinava
Matemática; e que trocava as matérias
de turma para turma – mas ensinava tão
bem uma como a outra;
Do
professor de Física Fundamental; que a todos
contava a sua história pessoal, quando, em
Paris, entrou dentro da gaiola de “faraday”,
feito herói, com os arames a faiscarem; Da
professora de Química; que se enganava nas
dosagens das experiências com os tubos de ensaio
e provocava muita vez fumo sem fogo;
Do
mestre careca que ensinava trabalhos manuais e não
gostava de ser careca; ou não gostava que lho
chamassem;
Do
professor – desculpe lá esta oh GS –
de introdução ao direito que, nos primeiros
dias de aulas, não gostava de dizer certas
palavras, só se referia ao Falo como símbolo
da justiça mas, mais tarde, substituiu este
termo por outro bem mais popular…
E
tantos, tantos outros, que em cada um de nós;
deixaram marcas, ensinamentos, valores, sabedoria,
educação e vontade de aprender a ser
gente.
É
verdade que alguns - mais os alguns de agora que os
do passado - não passam de técnicos
de educação, cuja licenciatura não
lhes permitiu arranjar emprego na respectiva área
e tiveram de socorrer-se do ensino, nem sempre sabendo
ensinar.
Mas
também é verdade, que a maior parte
deles e delas, são homens e mulheres, pessoas
humanas com a vida martirizada por uma interminável
viagem de mala às costas, filhos a tiracolo
e cônjuge por correspondência, que se
arrastam por aí, ao sabor de vontades alheias,
sem poder enraizar sentimentos e atitudes ou sem poder,
sequer, afeiçoar-se mais que um ano lectivo
a este ou àquele aluno, simplesmente porque
sim. Mas sabendo que esse aluno, o há-de recordar
para sempre.
E
sempre, é muito tempo!
Por
favor, não se trate tão mal esta gente
que nos criou e educou a mente, continuando a criar
a e educar a mente dos que a nós se seguirão.